Em escala geológica, a temperatura da Terra sempre funcionou como um relógio pontual. A cada 100.000 anos, mudanças sutis na órbita do planeta e na sua inclinação em relação ao Sol provocam uma queda na temperatura e fazem com que as massas de gelo dos pólos aumentem de tamanho e se aproximem da linha do Equador. São as glaciações. A última terminou há 10.000 anos. Foi nessa pequena janela geológica entre o fim da última era glacial e hoje, marcada por temperaturas amenas, que a humanidade desenvolveu a agricultura, construiu as cidades e viajou à Lua. Nos últimos 120 anos, com o relógio fora de ordem devido à atividade humana, a temperatura média do planeta aumentou 1 grau. Pode parecer pouco, mas mudanças climáticas dessa magnitude têm conseqüências drásticas. Há 12.000 anos, quando a temperatura média era apenas 3 graus mais baixa que a atual, uma camada de gelo cobria a Europa até a França. Uma vez alterado, o mecanismo natural do clima, dizem os cientistas, não é fácil de ser reajustado. "Ao quebrar o equilíbrio climático, a humanidade mexeu com processos que não conhece por completo e que estão fora do alcance e da capacidade da mais avançada tecnologia", analisa o geofísico Paulo Eduardo Artaxo, da Universidade de São Paulo.
Os gases responsáveis pelo aquecimento excessivo são produzidos pelos combustíveis fósseis usados nos carros, nas indústrias e nas termelétricas e pelas queimadas nas florestas. Processos naturais, como a decomposição da matéria orgânica e as erupções vulcânicas, produzem dez vezes mais gases que o homem. Por eras, garantiram sozinhos a manutenção do efeito estufa, sem o qual a vida não seria possível na Terra. Para se manter em equilíbrio climático, o planeta precisa receber a mesma quantidade de energia que envia de volta para o espaço. Se ocorrer desequilíbrio por algum motivo, o globo esquenta ou esfria até a temperatura atingir, mais uma vez, a medida exata para a troca correta de calor. O equilíbrio natural foi rompido pela revolução industrial. Desde o século XIX, as concentrações de dióxido de carbono no ar aumentaram 30%, as de metano dobraram e as de óxido nitroso subiram 15%. A última vez em que os níveis de gases do efeito estufa estiveram tão altos quanto agora foi há 3,5 milhões de anos. O ano passado foi o mais quente desde que as temperaturas começaram a ser registradas, em 1866. Pelo que se sabe, o planeta está mais quente do que já foi em qualquer momento dos últimos dois milênios. Se mantiver o ritmo atual, no fim do século a temperatura média será a mais elevada dos últimos 2 milhões de anos.
EFEITO IRREVERSÍVEL?
Sabe-se que o próximo relatório do Painel Internacional de Mudança Climática (IPCC,) das Nações Unidas, a mais respeitada autoridade em aquecimento global, a ser divulgado em 2007, depois de revisto pelos cientistas e pelos órgãos governamentais, deve estimar um aumento na temperatura média do planeta entre 2 e 4,5 graus até 2050. "Dois graus é uma barreira psicológica para os cientistas", diz Marc Lucotte, diretor do Instituto de Ciências do Ambiente da Universidade de Quebec, no Canadá. Acima desse patamar, a probabilidade de ocorrerem tragédias muito maiores que as observadas em anos recentes, como inundações, secas, ondas de calor, furacões e epidemias, aumenta muito. "Aí será tarde demais para tentar uma volta atrás", afirma o ambientalista Carlos Rittl, coordenador da campanha de clima do Greenpeace no Brasil. Na pior das hipóteses, um aumento de 4 graus iria igualar as temperaturas do Ártico aos patamares registrados há 130.000 anos, segundo um estudo feito com base em análises geológicas por cientistas da Universidade do Arizona e do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos Estados Unidos. Nesse passado distante, o nível dos oceanos era 6 metros mais alto e a camada de gelo do Ártico praticamente havia desaparecido. "Isso não significa que o nível do oceano subirá imediatamente a 6 metros quando o termômetro registrar um aumento de 4 graus na temperatura", disse a VEJA Jonathan Overpeck, um dos coordenadores do estudo. "Mas a partir de então o processo de derretimento dos glaciares será rápido e irreversível."
Irreversível? Muitos cientistas começam a acreditar que as mudanças climáticas chegaram a um ponto de não-retorno. Esse fenômeno leva agora o nome de tipping point, termo em inglês popularizado como título de livro por Malcolm Gladwell, escritor badalado de Nova York. Em ciência, significa o momento em que a dinâmica interna passa a encarregar-se de uma mudança iniciada previamente por forças externas. Em vários aspectos já cruzamos o limite sem volta. A limpeza da atmosfera é tarefa para gerações. O degelo nas regiões polares está além do tipping point. Obviamente, como conseqüência do volume de água do degelo, os oceanos continuarão a subir. O aquecimento dos mares alimentará novos furacões, aumentando a capacidade destrutiva desses fenômenos meteorológicos. "A violência desses desastres naturais só pode ser atenuada se houver uma redução na temperatura da água, o que parece improvável", afirma o biólogo americano Thomas Lovejoy, presidente do Centro Heinz para a Ciência, em Washington. Recentemente, Lovejoy constatou um novo efeito desastroso do excesso de gás carbônico: os mares estão ficando mais ácidos. As alterações no PH marítimo levam à redução do número de moluscos e plânctons, que estão na base da alimentação dos ecossistemas marítimos, e ameaçam aniquilar os recifes de corais. Obviamente, não há muito que se possa fazer para salvar a vida marinha.
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